segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Presente de Vento - Parte II



Desde então,lá vem o clichê, tudo mudou.

Não gosto de dizer que perdi algo, prefiro assim afirmar que o que eu tinha se expandiu, se alternou de um modo para outro, a fim de me mostrar as coisas além de como as conheço. Isso provocou em mim uma transformação muito mais profunda do que apenas adaptações diante das novas e inusitadas circunstâncias.

No dia em que deixei de usar os olhos, passei a enxergar com os ouvidos, com o olfato e com o corpo inteiro.

Ninguém soube dizer que foi que aconteceu comigo, nada de anormal havia com meu cérebro, nenhuma atrofia nos meus olhos. Os médicos chamaram de cegueira traumática, minha psique simplesmente recusava-se a interpretar o lá fora com imagens. Essa função estava por tempo indeterminado em greve.
E os terapeutas não souberam dizer com o que afinal de contas minha cegueira estava traumatizada. Quando comentei sobre o que eu acreditava ter sido uma intervenção do Vento, passaram a desconfiar que seja qual fosse o trauma, tenha sido tão forte que estava afetando minha razão.

Considerada instável e cega, não esperavam de mim mais nada muito coerente. Então rapidamente o fato de não mais enxergar foi me parecendo mais e mais agradável, já que eu andava tão insatisfeita com o que eu via ao redor e não suportava mais ter que corresponder com as egoístas expectativas alheias.
Livre da aprovação e julgamento, e despida da minha própria auto-imagem, passei a explorar as novas possibilidades da experiência, com o que eu acreditava ser a total liberdade pessoal.

Minhas manhãs eram incomparáveis. Comecei a distinguir cada canto de cada tipo de passarinho e cada som que fazia do raiar um novo começo.
Os sons que vinham de dentro de casa, e os que vinham das ruas. Os sons que resultavam de cada movimento que eu dava; o farfalhar das roupas e dos cabelos, o arrastar dos chinelos, o roçar da pele, o estralar dos ossos.

Durante as sessões com a terapeuta, eu descobria a minha voz. Falava e falava, não tanto para desabafar, mais para testar os vários tipos de entonação. Fazia uma pausa dramática, para criar um clima, e voltava a falar coisas que muita das vezes nem eram verdade.

Ouvir os outros conversarem havia se tornado uma diversão, eu viajava pra variados lugares de acordo com quem falava, o tom me provocava sentimentos, não escutava mais as palavras, escutava a intenção e intensidade.
O mesmo acontecia com os cheiros e com o tato. Cada detalhe me arrastava junto com ele, e por um momento ou mais eu me tornava aquilo que sentia. Andar nas ruas era um desafio, tropeções e quedas, cada passo com sucesso era um bom motivo para me motivar. Mas também era um turbilhão de sensações. Os relevos, os sons, os cheiros, enfim, tudo o que faz parte de um cenário atuando uníssono nos nossos cinco sentidos e conseqüentemente passando despercebido, se tornou fragmentável e intensificado.
Sem a visão unindo tudo de uma forma óbvia e esperada, meu senso de realidade se abstraiu e se reestruturou de uma forma que nunca poderei descrever realmente.

Descobri que mesmo no escuro há uma explosão de movimentos, formas, cores e luzes.

O clímax da experiência se fez num dia que ficará marcado, assim como tudo o que presenciei, na minha alma. Resolvi, depois de um longo tempo, ir ao lugar em que mais em paz eu me sentia quando das imagens eu fugia. Caminhei até o trapiche, dessa vez bêbados estavam presentes apenas no cheiro e grunhidos, não era mais repulsa que eu sentia, eles haviam se tornado sensações arquivadas na minha enciclopédia mental de exploração.
O fim de tarde que eu presenciei, foi até mais incrível dos que eu antes presenciava. As imagens foram substituídas por ondas de energia, que emanavam de todo cenário em minha frente. Os cheiros, a brisa, e o calor do sol poente se encontravam em tão perfeita união que pareciam um só ser e parecia me abraçar, se fundindo em mim num misto de descoberta, alegria e gratidão. Era a vida, nada mais.

A brisa aumentou, se encorpando em vento, crescendo junto com minha emoção, e ali, no momento da minha mais repleta satisfação e exaltação, abri os olhos e fui invadida por luz.

A visão voltara.

E após um momento de intenso clarão, vi que a paisagem estava mesmo tão linda quanto eu imaginara.

7 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Gostei do conto. E achei super legal o tema, a idéia principal da cegueira psicológica que na verdade é o que realmente abre os olhos da personagem para vida (pelo menos foi o que entendi). Eu gostaria de escrever contos, mas na verdade tenho dificuldades de criar histórias curtas. Todas as idéias que tenho são para histórias longas, romances. Quem sabe um dia eu escreva um. Você também já pensou nisso? Em escrever um livro de contos ou um romance? Será que o sonho de todo blogueiro é publicar algo? ashaushaush Bjus

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  3. aaa Caroolzitcha *--*, Fiico Shooow

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  4. Isso meesmo!
    Era essa mesmo a intenção, que pretendo fechar na terceira parte do conto. ^^

    Poô sem dúvidaaas, sempre penso nisso, mas comigo é o inverso, tenho dificuldade com histórias loongas, elas me cansaam, pois não consigo me dedicar muito. A um tempo quse fechei um livro, mas no final, perdi metade dele, não sei como,( inferno de tecnologia kk), aquilo foi muito frustrante e desisti.
    Mas esse ainda será meu desafio rs :)

    Espero que voce consigo publicá-las!! Estarei na fila pra comprar \o/


    Meeeeeego querido!
    Obrigada, que legal que voce está lendo amigo *_*
    Beijo!

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  5. E parece realmente um filme! Fiquei imaginando cada uma das diversas cenas em minha mente. A personagem, durante as sessões de terapia, rindo e divertindo-se das conversas. Caminhando de um lado para o outro, alternando a voz de dramática para musical. De grave para agudo. Dançando para sentir a pele tocar o vento e não o contrário. E a parte ao final, a volta da visão como um ápice de prazer. Um ponto máximo de descontração. O que mais seria necessário? Muito bom.

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  6. Olá! Eu indiquei seu blog ao selo "Blog de ouro", acho que seu blog merece. Amo as suas postagens, muito. Vai ao meu blog, lá tem o selo e você tem o direito de indicar mais 5 blogs que julga merecedor do selo. *-*
    Beijos.

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