Nasce o sol dando luz ao calor.
Suspira, geme e grita a vida parindo seus filhos a cada manhã.
Restam pedacinhos sob o lençol que ainda dormem, escondidos nas dobras do sono partido.
Parte do mundo,parte minha que parte de mim.
Enquanto os olhos abrem, cabem infinitos nesta fração de segundo.
Vejo meus irmãos chegando, vejo eles partindo...Lembranças de últimos olhares, gestos de carinho.
Onde estão?
Talvez nas dobras ainda dormindo.
Mãe, Pai, mergulhados na terra e no céu, tão distantes por vezes que
faltam...O afago da natureza e o chamado discreto de algo além.
Nesta fração de segundo a luz entra rasgando os devaneios e o marasmo do quarto noturno.
A manhã estica os bracinhos, se espreguiça, boceja e sorri. Conduzindo com malícia o novo dia de buscas, partidas e chegadas.
domingo, 31 de março de 2013
quinta-feira, 23 de agosto de 2012
Maré vazia, maré enchendo...
Sentei à beira-do-não-mar,a maré estava vazia.
Havia apenas lama ao alcance dos pés, água e sal acenavam seu brilho à distância.
A garganta estava amarrada com nós de mágoas, caminhei até ali para chorar e chorei.
Chorei, chorei, chorei...E as lágrimas caíram onde deveria ter mar - do transbordar, ao cessar.
Num instante suspenso, ausente de sofrimento, percebi o vento aumentando, empurrando a maré de volta pra perto! E assim bem de pertinho, de pouquinho em pouquinho, vi a maré encher... Cobrindo a lama com seu brilho, novamente!
E foi tão lindo, foi um momento carinhoso, sorrindo pra mim...
Nem precisei ver até o fim, levantei e saí por aí, com a sensação do vento empurrando e de maré enchendo - lá fora e aqui dentro...
segunda-feira, 26 de março de 2012
Pequena velha criança
Ouço sua respiração de singela tornar-se pesada. Controla-se afim de não desaguar, mas aos poucos ofegante, o inevitável parece dolorosamente se aproximar. É seu choro contido, engatado em cada célula do seu corpo, prestes a romper no silêncio da noite solitária.
Em trancos seus músculos se contraem, são jorros de emoções tantos anos aprisionadas. Vítimas amordaçadas de tantas repressões, agora no auge da sua idade elas enfim se libertam.
Pequena velha criança, apesar de toda maturidade se vê mergulhada em infinitas perguntas não respondidas. Ninguém se esforçou para lhe ajudar, e quando por suas mãos conseguiu se guiar descobriu que não havia a verdade absoluta para qual caminhar.
Arrependimentos não vão te fazer retornar e você sabe. Sabe que todo sofrimento que passou não podia ser evitado, e se agora chora, não é por tristeza, nem por tudo que deixou escapar.
Chora por vontade de chorar... Chora para se lavar...
Oferece suas lágrimas em agradecimento e sussurra ao invisível, que se hoje chora feliz, é porque apesar de tudo, você ainda consegue chorar...
Pequena velha criança que busca se encontrar, enxuga as lágrimas, fecha os olhos e escorrega aliviada no breu, mergulhando lentamente
Para dentro de si mesma...
quinta-feira, 8 de março de 2012
Peito à dentro
Abraça lento o vento
Deleita-se em acalento
Farfalham folhas secas
Anunciando a lua branca
Uma fuga atrás das nuvens escuras.
Atravessa calma sua voz meu peito à dentro
Esse que aberto, repousa no breu noturno
Pulsando embriagado, de tanto sentir-se amado...
quinta-feira, 24 de novembro de 2011
Veneno
Enquanto você fala, quase não ouço.
Perco-me em seus olhos confusos, aprisionados.
Assusto-me com o veneno escuro e viscoso de suas palavras,
transbordando de sua boca,
corroendo seus lábios,
escorrendo em sua pele,
precipitando de sua face.
Face distorcida pelos sentimentos amargurados...
Vejo esse veneno medonho alcançar o chão,
E espalhar-se por toda extensão
Vem em minha direção.
Quero correr,
Quero proteger meu coração.
Mas parece ser tarde, ele me pegou!
Começo a sentir ódio,
Agora também quero falar, quero vomitar,
Vomitar todo mal em cima de você.
Sinto o veneno transbordar em mim
Palavras saem como lanças
Meus lábios... Ardem.
Mas o sangue aqui dentro jorra violento contra as veias
Está lutando contra o veneno que quer tomar-lhe o lugar
E no seu louco pulsar, em desespero ele grita para mim:
- Não, não, não... Pare, pare!
E então... Eu o ouço.
Largo as pedras.Desmancho.
Abaixo a cabeça, aceito.
Fere, fere meu ego,
mas não meu coração!
domingo, 29 de maio de 2011
Contra o vento
A vida corre na velocidade do vento,
Sai arrastando tudo e rearrumando ao seu modo.
Somos poeira no vento,
Oscilando em incertos caminhos,
Passamos por tudo, mas a nada podendo nos agarrar...
Perdas, conquistas;
Quantas delas ainda nos entregaremos?
Quantos altos e quantos baixos serão necessário
Para perceber
O que agora
Não somos capazes de compreender...
Voa voa pássaro
Investe contra vento
Esvaem-se todas suas forças
Até perceber que apesar de tudo
Seu pequeno corpo não saiu do lugar...
Sai arrastando tudo e rearrumando ao seu modo.
Somos poeira no vento,
Oscilando em incertos caminhos,
Passamos por tudo, mas a nada podendo nos agarrar...
Perdas, conquistas;
Quantas delas ainda nos entregaremos?
Quantos altos e quantos baixos serão necessário
Para perceber
O que agora
Não somos capazes de compreender...
Voa voa pássaro
Investe contra vento
Esvaem-se todas suas forças
Até perceber que apesar de tudo
Seu pequeno corpo não saiu do lugar...
quarta-feira, 12 de janeiro de 2011
Um convite ao vômito

Gostaria de poder abrir todas as gavetas de minha memória, e pasta por pasta folhear todos os registros de minhas lembranças, detalhe por detalhe, degustar todos os segundos que se passaram, do primeiro dia, até o dia em que aqui estou. E VOMITAR TUDO EM SEGUIDA.
Impensável seria o dia em que nada mais estivesse oculto no esquecimento. Que mais nenhuma ação fosse provocada por qualquer motivo escondido no obscuro inconsciente. Não haveria então conflitos e arrependimentos, apenas escolhas totalmente conscientes. Na mente haveria o brilho, calor e a clareza de um sol, e não mais essas lâmpadas que tão fáceis se queimam. Haveria força e lucidez suficientes para enfrentar todas as conseqüências e todos os imprevistos, sem fraquejar, sem lamentar, e sem por medo chorar.
Belo seria o dia em que livres fôssemos, livres de nós mesmos. O passado seria apenas um filme, sem mais a força que nos prende, seja pelo riso, ou pela dor. Não, não seríamos sacos vazios. Seríamos balões cheios de ar, ar cheio de vida, vida cheia de graça. Enfim abertos aos mistérios do universo, com quantas incríveis descobertas não nos deliciaríamos? E quantas delas não nos mudariam, talvez até, por completo?
Não, não deixaríamos de amar as pessoas. Aliás, amaríamos mais! Nosso elo seria a liberdade, o amor que o momento pode despertar, ou, o momento que o amor pode despertar. Conceitos, expectativas e ressentimentos, ilusões que o vento levaria embora junto com nossos insensatos apegos.
Livrando-se do peso, enchendo-se de ar. Enfim saberíamos como voar! Então, por que não? Vamos vomitar...
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