segunda-feira, 19 de julho de 2010

A verdade sobreposta

Desisto, sento na cama e me deparo em frente ao espelho, mas o que eu vejo ali, refletido naquele vidro, não sou eu.

Intimista me olha, cabeça baixa, parece que bufa, vigilante, quer atacar.

Eu estou aqui, observando, na beira da cama, dividida entre o que sinto e o que vejo. O que vejo, é minha imagem, parece também estar me observando, e o que sinto, diz que algo me observa sim, mas o que ele aparenta é apenas uma máscara: a minha.

Por um momento a imagem se destaca e tudo refletido ao redor parece brilhar e pulsar. É como se estivesse em uma transformação quântica, energética, ou extra-física. Então o que a princípio era uma dualidade, duas realidades opostas, um delírio talvez, em seguida se revela apenas uma única verdade. A verdade é que as oposições se sobrepõem; a realidade que eu desejo é manchada pela qual agora eu vejo através do espelho.

Não sou eu, mas faz parte do que eu sou.

Parece ser um monstro que se apropria de mil formas. Monstro da desgraça, se alimenta do medo e dos vícios, produzindo cada vez mais aquilo que consome. De repente minhas dores ganham sentido, elas vêm dessa dimensão obscura, são resultados da inércia, que não é minha, mas que age em mim. E são alimentados por este, que agora me observa.

Minha visão então sai do foco, se embaça por um instante, parece que se interioriza e no momento seguinte torna a estabilizar. Parece não haver mais nenhuma presença, é mesmo meu reflexo frio que voltou ali fixar, ninguém mais bufa do outro lado, por enquanto. E eu sei que voltará, recolheu-se da consciência, para nos confins do inconsciente repousar, me acompanha, da mesma forma como a maioria das pessoas parece ser acompanhada.

É essa presença pesada, perturbadora, e muito bem disfarçada, que incomoda, descontrola e alastra sutilmente a loucura entre os homens e mulheres, cujos quais de geração a geração cegamente a sustentam, sem perceber que por trás das imagens e de todo sentimento, há um reflexo sinistro. São monstros que arrastam muitos para o poço escuro e detestam ser descobertos.

-Descubra-o - sussurra o espelho.

É de madrugada, não consigo dormir.
Eu, saturada, talvez esteja apenas com os sentidos confusos, ou então o espelho tem razão, que toda essa confusão, seja na verdade uma alerta - despertar da escuridão e ver enfim que o que vive dentro de nós é uma inconsciente prisão - e não delírios apenas.

11 comentários:

  1. Onde isso acaba?
    Acaba no centro de nós. Quando ligamos o elo da alma e da matéria. Quando compreendemos a vida.
    Quanto tempo leva?
    Sei lá, muitas vidas. O mais importante é perceber o prazer de viver em cada instante. Adoro você, filosofa dos novos tempos.
    Tania Bold.

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  2. A taninha, falou tudo! Obrigada! Também te adoro! ^^

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  3. Com certeza,voce é uma grande filósofa...

    Parabens pelo texto,pela riqueza dos detalhes,dificil encontrar hoje em dia quem escreva assim.Parabens mesmo!Muito perfeito tudo que voce escreve!
    ;)
    um grande abraço
    www.paginasdeumvelhocaderno.blogspot.com

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  4. Muitas vezes nós, humanos, nos encontramos presos a nós mesmos. Gostei muito do seu texto.
    Nós devemos sim, descobrir o que nos aprisiona e nos libertar, por mais difícil que pareça. Só devemos nos ater ao que desejamos. Só ao que nos faz bem.
    Parabéns pelo blog e pelo seu universo de palavras! *-*

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  5. è fato que temos que nos desprender de nós mesmos, como vc diz, é uma prisão interna! muito lindo o texto... adoro sua forma de escrever...

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  6. Adoro textos assim, meio loucos, meio melancólicos. E você sabe escrever muito bem esse tipo de texto.
    Adorei esse, por exemplo. Sei como é estar perdido entre duas realidades, a que você vive todo dia e que te consome, e aquela que você gostaria de viver.
    Beijo, já sou seu fã.

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  7. Noossa,obrigada pela visita e por colocar meu link aí! Fiquei muuito feliiz!

    :D

    e parabens de novo por todos esses textos tão perfeitos que voce escreve!

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  8. Belíssimo texto! lendo ele, me lembrei de algo que escrevi num dia de total descontrole comigo mesmo.
    “Não rara às vezes, a batida da vida domina meu pensamento de tal forma, que o descontrole ativa uma freqüência bem longe do real, e põe no grande circo tudo que senti, refleti e criei diante do que enxergava belo (...) O pior é a lembrança que fica disso tudo” (...)

    E também venho ao seu blog para retribuir o comentário que deixou no meu último post. Fique sabendo que és muito bem vinda aos meu "rabiscos", que ficarei muito feliz de ler palavras de sabedoria suas em outros posts meus. Beijos e me acompanhe www.filosofiadeliquidificador.blogspot.com

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  9. E quando eu penso que o tema de nosso alterego ou da nossa [in]consciência personificada já tinha sido saturado, é que encontro maravilhosos textos como esse e vejo que ainda existem pessoas que se desligam da condição já padrão de simplesmente criticar e chegam com uma proposta de reflexão diferente e livre de clichês da sociedade.
    Eu gostaria de participar mais dessa reflexão, mas estou um pouco longe dos pensamentos hoje, e não mesotu conseguindo criar nada que você não tenha já falado em seu conto. Iria discutir sobre os paradigmas, mas até deles você já citou! :))
    Sensacional!

    Obrigado por visitar sempre meu blog, e um super parabéns por seus textos! :)

    http://songsweetsong.blogspot.com/

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  10. Oie ^^

    Nossa quanto tempo que não passo aqui ....
    Parece que vc tb parece um pouco cansada, talvez é a vontade dagente realmente ter experiencias seguras.

    Sabe, as vezes sabemos que algo aconteceu, mas não o que e com quem exatamente....

    A dualidade na nossa vida faz parte e é ate manutendora, mas não muito, seria uma visão maniqueista da minha parte...

    :) obrigada pela força em minhas horas dificeis!

    grata.

    Niemi.

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  11. Talvez vc seja o espelho e a pessoa a sua frente a realidade...

    texto perfeito, consegui vivenciar todas as cenas, parecia q era eu mesma olhando e pensando!!
    mto bom mesmo!!!

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